Quando alguém começa a estudar value investing, os exemplos são sempre os mesmos: Apple, Microsoft, Coca-Cola. Empresas americanas, números em dólar, realidade que parece distante.
Eu também passei por isso. Li os livros, assisti as palestras, entendi a lógica — mas quando olhava pra B3, pensava: "Será que isso funciona aqui?"
Funciona. E os números são mais impressionantes do que eu imaginava.
O indicador que Munger mais valorizava
Charlie Munger ensinou — como exploramos em Inverta, Sempre Inverta — que "se um negócio rende 18% sobre o capital por 20 ou 30 anos, mesmo que você pague um preço que pareça caro, vai acabar com um resultado extraordinário."
Ele estava falando do ROIC — Return on Invested Capital. É o indicador que mostra quanto de lucro uma empresa gera com cada real que ela investe no próprio negócio. Quanto maior e mais consistente o ROIC, mais eficiente é a máquina de gerar valor.
Eu demorei pra entender a diferença entre uma empresa barata e uma empresa boa. Uma empresa com P/L de 5 pode parecer uma pechincha — mas se o ROIC dela é 6%, ela está gerando menos do que a Selic te paga sem risco nenhum. Com a Selic a 15%, essa conta fica ainda mais cruel.
Agora, uma empresa com ROIC de 25%? Ela está gerando quase o dobro da Selic com capital próprio. Historicamente, esse tipo de eficiência tende a se traduzir em crescimento de lucros — e, no longo prazo, em valorização.
Três empresas na B3 que chamam atenção
Quando olhei os números recentes de algumas empresas brasileiras, três me surpreenderam.
Importante: o que vem a seguir é uma análise educacional dos indicadores. Não é recomendação de compra ou venda. ROIC alto é um ponto de partida para análise, não uma conclusão.
ODPV3 — Odontoprev: ROIC de ~40%
Quarenta por cento. Leia de novo.
A Odontoprev é a maior operadora de planos odontológicos do Brasil, com mais de 7 milhões de beneficiários. Ela opera com modelo asset light — ou seja, não precisa de fábricas, equipamentos pesados ou infraestrutura cara pra crescer. Cada real investido no negócio rende de forma desproporcional.
Munger diria que é exatamente esse tipo de negócio que merece atenção: pouco capital necessário, margens altas, receita previsível.
E tem mais: a empresa distribui praticamente 100% do lucro em dividendos. Isso tende a acontecer quando o negócio gera tanto caixa que não precisa reter capital pra crescer — outra característica que Munger valorizava.
Agora, nenhuma análise seria completa sem contexto. A Odontoprev está passando por uma reestruturação relevante — o Bradesco anunciou a criação da Bradsaúde, um ecossistema de saúde que consolida a Odontoprev com outros ativos de saúde do grupo. A tese de investimento está mudando de "empresa de planos odontológicos" para "holding de saúde." Isso pode ser positivo ou negativo dependendo da execução. É o tipo de situação que exige acompanhar de perto.
CURY3 — Cury Construtora: ROIC de ~24%
Uma construtora com ROIC de 24%? No Brasil? Sim.
A Cury é especializada em habitação popular, com foco no programa Minha Casa, Minha Vida. Opera principalmente em São Paulo e Rio de Janeiro, com um modelo de financiamento associativo junto à Caixa Econômica que reduz risco e otimiza fluxo de caixa.
Eu costumava ignorar construtoras completamente. "Setor cíclico demais," pensava. E não estava errado — o setor é cíclico. Mas dentro dele, algumas empresas conseguem gerar retornos consistentes mesmo em ciclos difíceis. A consistência do ROIC é o que importa, não o setor em si.
A Cury valorizou mais de 100% nos últimos 12 meses e quase 550% em cinco anos. Isso não garante nada sobre o futuro — mas tende a refletir o que uma máquina de alto ROIC faz com o tempo. Como Munger ensinou: no longo prazo, é difícil uma ação render muito mais do que o negócio por trás dela rende.
O Dividend Yield acima de 11% também chama atenção. A empresa distribui uma parcela significativa do lucro porque gera caixa suficiente pra financiar o crescimento e ainda sobrar.
CXSE3 — Caixa Seguridade: ROIC de ~27%
A Caixa Seguridade é a holding de seguros, previdência e capitalização ligada à Caixa Econômica Federal. ROIC de 27%, ROE de 29%, margem líquida acima de 75%.
O fosso competitivo aqui é a distribuição: a rede da Caixa tem milhares de agências, lotéricas e correspondentes bancários espalhados pelo Brasil inteiro. Outro player pode até criar um produto melhor — mas replicar esse canal de distribuição? Isso é praticamente impossível.
Se quiser entender os tipos de fosso em detalhe — com exemplos brasileiros e como detectá-los nos números — leia: Fosso Econômico: Como Identificar Empresas com Vantagens Competitivas Duráveis (em breve).
Munger chamaria isso de durable competitive advantage — uma vantagem competitiva que não se copia fácil. É exatamente o segundo filtro da metodologia dele.
O risco? Controle estatal. Decisões podem priorizar objetivos políticos sobre maximização de valor. É um fator que o investidor metódico precisa considerar antes de tirar qualquer conclusão.
O que esses números ensinam
Não estou dizendo que essas são as "melhores" empresas da bolsa. Estou mostrando que empresas brasileiras podem ter números de qualidade tão impressionantes quanto as americanas mais famosas.
Pra contextualizar: a Apple tem ROIC em torno de 55%. A Microsoft, cerca de 30%. A Visa, por volta de 35%. Os números de ODPV3, CURY3 e CXSE3 estão no mesmo patamar de muitas blue chips globais.
E por que isso importa? Porque a Selic a 15% condiciona muita gente a pensar que renda variável não vale a pena. Mas uma empresa que gera ROIC consistente de 25%+ está potencialmente criando valor acima do custo de capital — mesmo num cenário de juros altos. É justamente quando os juros estão altos que a qualidade do negócio separa o joio do trigo.
ROIC alto não basta — é só o primeiro filtro
Aqui é onde muita gente se empolga e erra. ROIC alto chama atenção, mas não conta a história toda.
Charlie Munger usava quatro filtros antes de considerar qualquer empresa:
- Eu entendo esse negócio? (Círculo de Competência)
- A vantagem competitiva é durável? (Fosso Econômico)
- A gestão é confiável? (Qualidade da Gestão)
- O preço faz sentido? (Margem de Segurança)
O ROIC ajuda a responder o filtro 2 da análise fundamentalista — um ROIC consistentemente alto pode indicar a presença de um fosso econômico. Mas você ainda precisa entender o negócio, avaliar a gestão e verificar se o preço oferece margem de segurança.
A qualidade da gestão é o filtro mais difícil de quantificar — e o mais subestimado. Para entender como avaliar: Como Analisar a Gestão de Uma Empresa Antes de Investir (em breve).
Na SimplificAções, você pode ver o ROIC e outros indicadores de qualidade de qualquer ação do S&P 500 e Ibovespa. E se quiser aplicar os quatro filtros de Munger passo a passo, o wizard interativo te guia pelo processo completo.
Antes de sair procurando ROIC alto
Um aviso que eu gostaria de ter recebido quando comecei: não procure empresas pelo ROIC como quem procura "dica quente" — dicas de ações estão morrendo, e isso é ótimo. O indicador é uma lente — um ponto de partida que ajuda a filtrar a B3 inteira e focar nas empresas que merecem análise mais profunda.
E nunca olhe o ROIC de um único ano. Uma empresa pode ter ROIC de 40% num trimestre e 8% no seguinte por causa de um evento não recorrente. A consistência ao longo de vários anos é o que realmente importa.
Se quiser ver como o ROIC se transforma em patrimônio ao longo de décadas, explore o Simulador de Juros Compostos. É ali que a frase de Munger sobre 18% ao ano ganha vida real — e te ajuda a entender por que paciência é a arma secreta do investidor metódico.
FAQ
O que é ROIC? ROIC (Return on Invested Capital) mede quanto lucro uma empresa gera com cada real de capital investido no negócio. Quanto maior e mais consistente, mais eficiente é a empresa na geração de valor.
ROIC alto significa que a ação é boa? Não necessariamente. ROIC alto é um indicador de qualidade operacional, mas precisa ser analisado junto com outros fatores: consistência ao longo dos anos, vantagem competitiva, qualidade da gestão e, claro, o preço que você pagaria. É um ponto de partida, não uma conclusão.
Qual ROIC é considerado alto? Depende do setor, mas de forma geral, um ROIC consistentemente acima de 15% tende a indicar um negócio de qualidade. Acima de 20% chama atenção. Acima de 30%, é excepcional. Como referência, a Selic hoje está em 15% — qualquer investimento em ações precisa justificar por que vale mais do que isso.
Por que comparar com a Selic? Porque a Selic representa o retorno sem risco no Brasil. Se uma empresa tem ROIC de 10% e a Selic paga 15%, o negócio está gerando menos do que a renda fixa. O ROIC precisa superar o custo de capital — e no Brasil, o custo de capital começa pela Selic.
Essas empresas são recomendações de compra? Não. Este conteúdo é exclusivamente educacional. As empresas citadas são exemplos que ilustram como o ROIC funciona na prática com ações brasileiras. Consulte um profissional certificado (CNPI) antes de tomar qualquer decisão de investimento.
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Este conteúdo é exclusivamente educacional e não constitui recomendação de investimento. Consulte um profissional certificado (CNPI) antes de tomar decisões de investimento.
Dados de ROIC referentes ao período mais recente disponível (início de 2026). Indicadores podem variar conforme a fonte e metodologia de cálculo.
Última atualização: Março de 2026 | Selic: 15% ao ano