E o que isso diz sobre como escolhemos o que ensinar
Resposta rápida: A SimplificAções não cobre criptomoedas porque análise fundamentalista exige balanços patrimoniais, demonstrações de resultado e fluxo de caixa auditados. Criptomoedas não possuem esses dados, tornando impossível aplicar os 4 Filtros de Munger.
Toda semana alguém pergunta: "Vocês vão cobrir cripto?"
A resposta curta: não.
A resposta longa é mais interessante — porque o motivo pelo qual não cobrimos cripto revela exatamente o que a SimplificAções é. E o que não é.
O Teste Que Cripto Não Passa
A metodologia da SimplificAções é baseada nos 4 Filtros de Charlie Munger — o mesmo framework que guiou décadas de decisões na Berkshire Hathaway. Cada ação que você analisa na plataforma passa por quatro perguntas:
Filtro 1: Eu entendo esse negócio? Qual é o produto? Como a empresa ganha dinheiro? Pra quem ela vende?
Filtro 2: A empresa tem uma vantagem competitiva durável? Alguém consegue copiar o que ela faz? O que protege a posição dela no mercado?
Filtro 3: A gestão é competente e honesta? Quem está tomando as decisões? Eles têm histórico de gerar valor pro acionista?
Filtro 4: O preço faz sentido? O que estou pagando versus o que o negócio realmente vale?
Agora tenta aplicar esses filtros ao Bitcoin. Ou ao Ethereum. Ou a qualquer outra criptomoeda.
Filtro 1? Não existe negócio por trás. Não tem receita, não tem produto, não tem cliente. É um ativo digital — não uma empresa.
Filtro 2? Não existe fosso (moat). Qualquer pessoa com conhecimento de programação pode criar uma nova criptomoeda amanhã. E criam — são milhares.
Filtro 3? Não existe gestão. Não tem CEO, não tem conselho, não tem demonstrações financeiras pra analisar.
Filtro 4? Não existe valor intrínseco calculável. Sem lucros, sem fluxo de caixa, sem ROIC — não tem como estimar o que "vale." O preço é 100% determinado pelo que a próxima pessoa está disposta a pagar.
Não é que cripto falha nos filtros. É que os filtros nem se aplicam. É como tentar usar uma régua pra medir a temperatura. A ferramenta simplesmente não serve pro trabalho.
O Que Munger e Buffett Realmente Disseram
Charlie Munger nunca escondeu o que pensava sobre cripto. Na assembleia anual da Berkshire Hathaway de 2022, ele foi direto: "Na minha vida, eu tento evitar coisas que são estúpidas, malignas, ou que me fazem parecer mal em comparação com alguém — e o Bitcoin faz as três coisas."
Warren Buffett, na mesma assembleia, colocou de um jeito que vale refletir: se alguém oferecesse todo o Bitcoin do mundo por US$ 25, ele não compraria. Por quê? "Eu teria que vender de volta pra você de alguma forma. Ele não vai produzir nada."
E em 2018, Buffett cunhou a frase que virou lenda: Bitcoin é "provavelmente veneno de rato ao quadrado." Na mesma reunião, Munger complementou chamando o trading de cripto de "pura demência."
Forte? Sim. Mas a lógica por trás é simples, e conecta diretamente com a frase que ancora toda a SimplificAções — aquela que Munger disse na USC em 1994: "No longo prazo, é difícil uma ação render muito mais do que o negócio por detrás dela rende."
Se não existe negócio por detrás, não existe rendimento. Se não existe rendimento, não existe compounding. E se não existe compounding, você está apostando que alguém vai pagar mais do que você pagou. Isso não é investir. É especular.
A Confissão Que Ninguém Faz
Eu preciso ser honesto aqui. Eu comprei cripto.
Não porque eu acreditava na tese. Não porque eu tinha feito alguma análise. Mas porque um amigo meu não parava de falar nisso. Toda vez que a gente se encontrava: cripto. Toda conversa: cripto. Toda mensagem no WhatsApp: cripto.
Um dia eu cansei. Coloquei US$ 600 só pra ele parar de encher o saco.
Não fiz nenhuma das perguntas que Munger ensina. Não olhei o que estava comprando. Não tinha a menor ideia se o preço fazia sentido. Comprei porque a pressão social era mais forte que a minha disciplina.
Um ano e meio, dois anos depois, vendi por US$ 150.
Perdi 75% do que coloquei. Não foi um valor que mudou minha vida — mas a lição mudou.
Porque o problema não foi "cripto é ruim." O problema foi eu. Eu tomei uma decisão de investimento sem método, sem análise, sem framework nenhum. Comprei porque alguém me pressionou. Isso é exatamente o tipo de erro que a análise fundamentalista existe pra prevenir.
Se eu tivesse me feito a primeira pergunta de Munger — "Eu entendo esse negócio?" — a resposta honesta teria sido não. E US$ 600 teriam ficado no meu bolso. Ou melhor: teriam ido pra um investimento que eu realmente entendia.
Eu conto isso porque é fácil parecer inteligente depois. É fácil citar Munger e dizer que cripto não passa nos filtros. O difícil é admitir que você mesmo já ignorou os filtros — e pagou por isso. Literalmente.
A Ponte Com a Realidade Brasileira
No Brasil, a tentação é ainda maior. Com a Selic alta, o brasileiro está acostumado com retornos "garantidos" de renda fixa. Quando a Selic eventualmente cai, as pessoas migram em massa pra renda variável — e cripto captura parte desse fluxo.
Mas pensa comigo: se a Selic te paga dois dígitos ao ano sem risco, qualquer investimento alternativo precisa justificar o risco adicional. Uma empresa com ROIC consistentemente acima de 15% te dá uma tese: ela gera valor real, reinveste a taxas altas, e historicamente, empresas assim tendem a valorizar no longo prazo. Você tem dados concretos pra analisar.
Com cripto, o que você tem? Uma tela com velas verdes e vermelhas. Sem balanço, sem demonstração de resultados, sem ROIC, sem nada que um framework de análise fundamentalista consiga avaliar.
E tem o detalhe regulatório: a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) ainda está consolidando a regulamentação de criptoativos no Brasil sob o Marco Legal das Criptomoedas. Cobrir cripto adicionaria uma camada enorme de complexidade regulatória sem benefício educacional claro.
O Que Isso Diz Sobre a SimplificAções
Dizer "não" a algo popular é uma decisão de posicionamento. E posicionamento é sobre o que você não faz tanto quanto o que faz.
A SimplificAções existe pra ensinar um método. Não pra cobrir tudo que se move no mercado. Munger chamava isso de "círculo de competência" — saber o limite do que você entende e ter a disciplina de ficar dentro dele.
Nosso círculo de competência é análise fundamentalista. Empresas reais, com receita, lucro, ROIC, vantagem competitiva. Ações do S&P 500 e do Ibovespa que passam pelos 4 Filtros. É isso que a plataforma faz bem, e é nisso que vamos continuar focando.
Se um dia existir um framework sólido pra avaliar criptoativos da mesma forma que avaliamos empresas — com métricas de geração de valor, com dados verificáveis, com alguma forma de calcular valor intrínseco — a conversa pode mudar. Mas hoje, essa ferramenta não existe. E criar conteúdo sem ferramenta é criar ruído. E ruído já tem demais no mercado financeiro.
O Filtro Antes do Filtro
Antes de aplicar os 4 Filtros de Munger a qualquer ativo, existe um filtro zero: isso é analisável?
Tem lucros? Tem balanço? Tem gestão? Tem alguma forma de calcular o que vale?
Se a resposta é não, os outros quatro filtros nem precisam ser aplicados. Você está fora do território da análise fundamentalista. Pode ser que funcione pra outra pessoa, com outro método, com outra tolerância a risco. Mas não é o que ensinamos aqui.
E tudo bem. Nenhuma metodologia cobre tudo. A força de um método está justamente nos limites que ele reconhece.
Na SimplificAções, cada ferramenta que construímos — do painel de indicadores de qualidade ao Simulador de Juros Compostos e o Dashboard de Distância da MMS200 — existe pra te ajudar a analisar negócios. Empresas reais. Com números reais.
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Porque no fim das contas, Munger estava certo: o que importa é o negócio por detrás da ação. Se não tem negócio, não tem análise. E se não tem análise, a SimplificAções não tem o que ensinar.
E isso, pra gente, não é uma limitação. É uma escolha.
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